O site desse tabloide francês encontrou uma nova forma de convencer as pessoas a aceitar cookies: oferecer doar 10% da renda recebida com publicidade a uma associação que a pessoa pode escolher.
Em outras palavras, topa trocar sua privacidade por doação à associações? Se você for uma alma generosa, aceite os cookies - isso fará o bem a vários projetos sociais!
O recurso é vendido por uma empresa chamada Gimii. Pelo que entendi do site deles, esse aviso aparece apenas para os usuários que possuem um bloqueador de anúncios no navegador. Trata-se de um script que a empresa integra às maiores Plataformas de Gestão de Consentimento (CMP) do mercado.
Um CMP é um software que as empresas contratam para (supostamente) se adequarem às leis de proteção de dados. Ele faz o gerenciamento detalhado da coleta de consentimento dos usuários, que hoje em dia não se baseia mais em "concordo" ou "não concordo" (o que um mero script poderia resolver), mas em "concordo com cookies para o fim X, mas não para o fim Y", "concordo com cookies da empresa parceira Z, K, T, U, M mas não da empresa W, Q, V, A". (uma ficção)
De acordo com o site do Gimii, 2.908.368 consentimentos foram revertidos. Em outras palavras, pessoas que utilizavam bloqueadores de anúncios e viram a opção de aceitar os cookies para ajudar associações mudaram de ideia e aceitaram os cookies, o que gerou uma receita de 898.693€, dos quais 89.874€ já foram doados às associações.
Sem auditoria externa, é a palavra deles.
Segue aqui alguns detalhes técnicos, sem entrar no debate jurídico da adequação às leis de proteção de dados:
Como saber se o dinheiro é enviado às associações?
Segundo a Gimii, o script deles utiliza as informações do sistema do cliente para contabilizar as doações.
Um exemplo de como funciona:
Fulano acessa o site do tabloide L'Echo Republicain e rejeita a primeira janela de cookies de um CMP (como o OneTrust).
Uma nova janela de cookies aparece, dessa vez da Gimii, oferecendo uma contrapartida: se Fulano aceitar os cookies, parte da renda será enviada a uma ou mais associações de sua escolha.
Fulano decide então aceitar os cookies e escolher a Fundação X para receber parte das receitas publicitárias.
Fulano continuou a navegar e visualizou diversos anúncios no site do tabloide, gerando receita de 1€.
O servidor publicitário do tabloide envia à Gimii a informação de que Fulano, que escolheu a Fundação X, gerou uma receita de 1€.
No dia seguinte, a Gimii envia uma fatura de 0,10€ ao tabloide (10% de 1€) e faz uma doação desse valor à fundação escolhida por Fulano.
Para intermediar o recebimento de doações em nome de terceiros, a Gimii precisa obter autorização de um organismo francês específico.
Apesar de ser a Gimii que faz as transferências, a doação é em nome do cliente, nesse caso, o tabloide.
No início de cada mês, o cliente recebe uma fatura com o valor total das doações arrecadadas, baseada nas estatísticas do cliente, e a Gimii fará as doações para as associações escolhidas.
E no fim do ano, o cliente receberá recibos fiscais (um por associação), que serão um documento oficial atestando que as doações foram feitas e que poderão ser utilizados pela empresa para obter abatimento de impostos (na França, até 60% das doações podem ser descontadas do imposto a ser pago anualmente).
Eles chamam esse sistema de "Consent Raiser". Aparentemente foram eles que criaram o termo e afirmam ser os primeiros do mundo a utilizá-lo. Eles também afirmam que foram acompanhados por um DPO (Oficial de Proteção de Dados) e que o produto está de acordo com o #GDPR.
Esse entendimento porém está longe de ser uma unanimidade entre os profissionais do direito.
A entrega de dados pessoais em troca de ajuda ao terceiro setor não é novidade. Isso lembra um pouco o que os metabuscadores Ecosia, Lilo e Karma prometem: eles usam a API do Bing (Microsoft) para mostrar resultados de buscas e contratam o sistema de publicidade da Microsoft para exibir anúncios (Bing Ads). Quando as pessoas clicam nos anúncios, algumas informações dos usuários desses metabuscadores são enviadas à Microsoft, e essas empresas são remuneradas a cada clique. Parte do que essas empresas ganham como intermediárias é destinado a causas ambientais (a #Ecosia planta árvores), a causas de proteção animal (a #Karma) e a causas sociais (a #Lilo).
Tradução do texto na imagem:
Os cookies solidários!Um pequeno clique, um grande impacto!
Você aceita os cookies, nós fazemos uma doação.
10% da renda com publicidade serão doados à associação que você escolher:
Fundação Alzheimer
Cartooning pela Paz.
Fundação das Mulheres.
The Den (ajuda os animais).
Botão vermelho: Ajudar todas as associações
#privacidade #cookies #consentimento #consent #LGPD #GDPR